Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo

                  

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Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo.

Mateus tem um cunhado: o Autismo afeta as relações pessoais dos irmãos?

Há muito tempo quero escrever sobre isso, não só para compartilhar minha experiência pessoal, mas também responder a pedidos de irmãs azuis que me solicitaram essa temática. “Que temática?” alguns podem perguntar. O autismo de nossos irmãos/irmãs pode afetar os nossos relacionamentos afetivos? Sim — e por vários motivos!

O primeiro ponto que eu poderia destacar é que temos uma responsabilidade implícita que nos é delegada, quer a gente queira ou não. De alguma forma, somos e seremos responsáveis por eles no futuro. Se só tem um irmão, vai ser você mesmo. Se tiver mais de um, vão ter que se revezar no cuidado. E por aí vai… Em outras palavras, você é solteiro/a e jovem, mas já tem um “filho” ou alguém que depende, nem que seja minimamente, do seu cuidado e atenção. Isso eu falo por mim e pela experiência de outros irmãos com quem tive contato, pois, mesmo que não sejamos os principais responsáveis e que os nossos pais não coloquem esta carga em cima de nós, nos sentimos parte disso. Em algum nível, todos nós (irmãos) desenvolvemos um senso de cuidado e responsabilidade. O trocadilho “irmãe não é à toa. Se existe amor, eles fazem parte de nós e nós deles. Como já escrevi aqui, a confiança, o companheirismo e o amor é o que faz da relação de irmãos algo tão especial.

Porém, nem tudo são flores e não é fácil ser tão jovem e com uma responsabilidade tão grande. Isso pode “assustar” os pretendentes que cruzam nossos caminhos, afinal, que jovem encara isso com naturalidade? É complicado. Já ouvi relatos de irmãs, as quais o namorado de anos, de repente chegou e disse: “Ou eu ou ele. Você escolhe.” Porém, sinto lhe dizer, prezado pretendente: não existe escolha para isso. E quantas irmãs e irmãos enfrentam no dia a dia a resistência de seus parceiros/as em conviver com o irmão/irmã autista? Ou ainda mais grave: quantos nem se aproximam de nós quando sabem que temos alguém com deficiência na família? Muitas são as situações que podem acontecer com cada um(a) de nós. São histórias ocultas de preconceito e de falta de amor que pouco se fala abertamente.

Quando eu conheci meu noivo, Daniel, desde o início ele soube do Mateus — afinal, eu sou a Fernanda, irmã do Mateus, né gente? Na nossa primeira conversa, já falei do meu irmão autista, do blog e de como essa causa é importante para mim. E ele se apaixonou por mim e por nós (e eu por ele, é claro!). Hoje ele é companheiro meu e do Mateus, sempre compreensivo, aberto e disposto a entender as particularidades do xuxu. Daniel tem aprendido o jeito que o Mateus se comunica, a forma como ele interage e eles até já tem códigos um com o outro. Mateus fica feliz de ver o cunhado, sempre o abraça com o sorriso largo e muito carinho. É lindo de ver! Meu coração de irmã se enche de alegria e alívio, pois sei que tenho um companheiro que vai estar sempre comigo, nos momentos bons e ruins, tanto meus, quanto do Mateus.

Há três anos, recebi um conselho de uma irmã azul, já casada. Ela me disse: “É solteira ainda? Se sim, escolhe bem o marido, pois ele tem que amar o teu irmão, assim como tu amas. É muito importante, se não, a convivência fica muito difícil e o apoio é fundamental.” Guardei essas palavras no coração e hoje vivo isso, tranquila e em paz, sabendo que a transparência e o amor nos uniram e estarão conosco por todos os nossos dias. Para os irmãos e irmãs que passaram por situações, como as que eu citei acima, meu conselho é: não aceite na sua vida ninguém que diz que te ama, mas que não respeita, nem considera a sua família. Família sintetiza muito de quem nós somos, de onde viemos e aonde queremos chegar. Logo, ficar com alguém que não respeita a tua história e os teus… Bem, é algo que não convém, né? Tenho certeza que você achará alguém tão incrível quanto você e que saiba te amar incondicionalmente, a ti e ao teu irmão/irmã autista.

Tags: Eu e o Mateus, Irmãos Azuis