Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo

                  

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Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo.

O Autismo do meu irmão me moldou

Quando eu digo que o Mateus influenciou a minha vida de várias formas, imagino que muitos tenham dificuldade para entender que manifestações são essas. Minha personalidade, o jeito que eu falo e a forma como eu me relaciono com as pessoas têm a influência dele e se deve muito ao fato de eu ter crescido e convivido com ele desde sempre.

O que eu quero explicar hoje é algo que eu já tinha reparado há algum tempo, mas nunca parei para realmente refletir sobre isso. Eis a questão: eu tenho uma certa dificuldade em falar na primeira pessoa do singular. Explico. 

Em muitas situações, quem estava falando era  eu, única e exclusivamente. Porém, quando vou escrever/falar, sempre tendo a falar no  plural, como "Nós queremos", "A gente prefere", "Seria melhor", "Quem sabe não fazemos desse jeito?". Sempre fui extremamente conciliadora e raramente sou de manifestar fortemente as minhas opiniões -- apesar de ter personalidade e opiniões fortes! E o que isso tem a ver com o Mateus? Tudo. Eu sempre tive que ceder em prol dele e muitas vezes tive que falar por ele. Não falava por mim, mas por ele. Sempre fui uma voz para o Mateus, quando ele não conseguia se expressar adequadamente. Sempre me preocupei com o bem-estar dele. Sempre o defendi de tudo e de todos.

De certa forma, isso teve um grande impacto na minha vida. Por muito tempo (e ainda hoje!) reluto em dizer: "eu quero, tem que ser assim, deve ser do meu jeito". Tenho muita dificuldade com isso. Acostumei-me a ceder pelo Mateus (e isso vou fazer sempre!), mas não posso ceder frente a outras situações na vida. Sei que as coisas não podem ser assim. Existem diversos momentos na vida que precisamos demonstrar nossas opiniões e falar de forma autônoma por nós mesmos. Até hoje, tenho que me policiar para me expressar claramente.

Interessante, né? Pode parecer um impacto simples, mas não é. Se não cuidarmos, isso pode ter uma repercussão ainda maior na personalidade de muitos irmãos de autistas. Infelizmente, muitos se sentem anulados no familiar, onde, claramente, o centro não é ele mesmo, mas o irmão/irmã autista. A família deve estar muito atenta e prezar para que todos tenham vez e voz na dinâmica familiar, garantindo a individualidade de cada um. Dizem que muitas mães anulam a si mesmas a partir da convivência e dos desafios enfrentados com o filho autista... E o mesmo pode acontecer com os irmãos. Estejamos atentos.

P.S: ilustração incrível feita pela minha amiga Ana Clara Tissot, que também tem um grande envolvimento com a causa do Autismo! Visite o perfil dela clicando aqui

 

Tags: Eu e o Mateus, Irmãos Azuis