Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo

                  

O uso indiscriminado da palavra “autista”

Uma das coisas que mais me chateavam quando eu era pequena era escutar piadinhas relacionadas ao autismo. Às vezes ouvia no colégio “ei, fulaninho, para de ser autista!” ou “você parece um autista aí nesse canto”. Às vezes, também ouvia as pessoas dizerem de si mesmas: “estou meio autista hoje” ou “ah, hoje estou autistando um pouco”.

Confesso que nunca lidei bem com isso. Nunca fui de responder na hora (talvez devesse!) e acabava guardando. Pensava comigo mesma: “Um dia essa pessoa vai saber o que é autismo e não vai ficar falando assim…”. Talvez esse blog sirva como todas as respostas que eu não dei naquela época.

Não. Autismo não é um estado de espírito. Não existe estar “meio autista” hoje.

Não. Autismo não é personalidade. Não é a pessoa ser mais quieta ou mais reservada.

Não. Autismo não é opção. Ninguém escolhe ser autista.

Sei que existem pessoas que defendem que o autismo é um estilo de vida. Respeito. Cada um tem a sua vivência e opta por defini-la como quiser. Entretanto, eu falo de mim, do Mateus e da nossa vivência – e para nós, o autismo não é um estilo. Doi. Para nós, é um transtorno que muitas vezes rouba a nossa paz, faz-nos não saber o que virá no momento seguinte, mantém-nos em uma rotina, muitas vezes, escravizadora.

O grande problema em tudo isto é que não parei de ouvir enquanto era pequena. Continuo ouvindo. Já nos cansamos de ver jornalistas, políticos, autoridades, etc, utilizando o termo sem qualquer conhecimento de causa. Usam para dizer que o governo foi ineficaz, que as políticas não estão de acordo, que os fluxos não estão funcionando como deveriam. Falam como se fosse o autismo fosse sinônimo de isolamento, de falta de diálogo, de indiferença. Usam como comparação com pessoas alienadas, com quem não tem direitos, com quem não tem voz. Nós sabemos que isto não é verdade.

É triste e doi bastante. Hoje ainda fico chateada. Mas escrevo. Escrevo como quem busca dar uma resposta. Escrevo não para brigar, mas para construir. Escrevo para sensibilizar, conscientizar. Quem sabe ouvindo nossas histórias eles aprendam quem nós somos, né?.

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