Um pouco do cotidiano de uma irmã de um jovem com autismo

                  

Vamos falar de amor

Um dos comentários mais recorrentes que recebo é de pais e mães dizendo: “espero que meu filho/minha filha neurotípico possa amar o irmão com autismo assim como você ama o Mateus”. Respondo dizendo: “ele(a) vai amá-lo com certeza!”. E como eu posso ter essa certeza?

O amor, para mim, assim como várias outras coisas na vida, é uma construção. O amor começa com uma intenção e continua com decisões diárias em amar. O amor em família (e pelo Mateus), na minha vivência, veio do exemplo. Eu vi meus pais amando o Mateus e a mim. Igualmente. Aliás, minha mãe sempre disse que tem “dois filhos únicos”. Portanto, posso dizer que sim, seu filho vai amar o irmão porque você ama os dois (ou três, ou quantos filhos você tiver!).

O amor foi aquela escolha que fiz quando tinha cinco anos, quando minha mãe me disse: “Você tem duas opções: ou você ama ou rejeita o Mateus. A mamãe e o papai escolheram amar. E você, minha filha?”. “Então eu quero amar, mamãe.” E assim começou. Começou uma vida juntos, uma relação com todos os altos e baixos que são característicos da nossa vida por aqui. Nem sempre foi fácil. Eu já briguei muito com o Mateus – até porque irmão que não se implica não é irmão, né? Quando era pequena não gostava que ele mexia nos meus cds (e estragava quase todos de tanto repetir as músicas preferidas dele), não deixava que ele pegasse as minhas bonecas, tinha medo que ele tivesse alguma crise na frente das minhas amigas. Vergonha? Talvez, mas não tenho mais consciência desse tipo de sentimento. Hoje reconheço que qualquer sentimento negativo que eu tive fez parte de um processo totalmente normal. Faz parte. E passa, como tudo na vida.

Existem alguns estudos na área da psicologia sobre o nível de estresse em irmãos de crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Os resultados, que podem surpreender alguns é de que não: não somos mais estressados que outros por causa da condição de nosso irmão autista. O que pode elevar o estresse é a falta de apoio da família, a dificuldade das mesmas em equilibrar esta nova dinâmica familiar e a falta de atendimento na rede de saúde e de educação que podem comprometer o dia-a-dia da criança com autismo e de toda a sua família. No mais, podemos sim ter um ótimo relacionamento com nosso irmão autista, vivendo cada dia de forma única, enxergando possibilidades de trocas e construindo uma das relações mais lindas e especiais da nossa vida, relação baseada no carinho, no respeito, na lealdade e no amor.

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